Eu sou linda… fora do Brasil!

Eu estava na 5ª série e era hora do recreio. Assim como todas as meninas, sentei na mureta para ver os meninos jogando futebol. Todas gostavam do Armstrong e do Paulo, ambos da 8ª série, mas o mais bonito para mim era o José Victor, da 7ª série. Eu nunca fui do tipo que se interessa pelos mais bonitos e populares. Na época, o meu preferido do Backstreet Boys não era o Nick ou o Kevin. Sempre foi o AJ.

A bola bateu na grade bem na minha frente e o José Victor veio na minha direção e pegou a bola. Antes de bater a lateral ele chegou na grade, parou na minha frente e resmungou “ei”. Levantei a cabeça, arrumei os óculos e olhei pra ele, que logo em seguida falou “nossa guria, você é muito feia”. Foi assim, de graça. Mas foi suficiente para eu entender como as coisas funcionavam. Eu não era o Armstrong, eu não era o Paulo. Eu não era nem mesmo o José Victor. Eu era o nerd de óculos.

Não sei se foi culpa do José Victor ou do cara mais bonito que eu já fiquei e que pediu, por favor, para eu não contar para ninguém. Talvez também tenha sido um pouco de culpa do outro lá, que disse que só se interessou por mim porque eu tinha carro e que ficou decepcionado quando descobriu que eu não era rica. Não, não. Na verdade a culpa é minha. Mas fato é que as pessoas nem precisam me conhecer muito bem para perceber que eu devo ter a pior autoestima do Brasil. No Brasil. Porque quando eu viajo, as coisas mudam completamente.

Era Vienna Weekend e os trainees de outros países vieram para a Áustria. Passamos o dia inteiro caminhando num calor de mais de 30º C. Voltei para casa, tomei banho e me arrumei para a primeira festa da minha temporada na Áustria. Vestido, salto, maquiagem. Padrão normal brasileiro. Quando cheguei lá parecia que eu tinha sido traficada e estava no meu horário de trabalho. As outras meninas estavam tão lindas vestidas de si mesmas e eu ali, traficada.

22h de uma sexta-feira e eu estava jogada na cama sonhando com um ventilador. Meu Skype tocou.

– Vamos numa festa?

– Vamos. Quando?

– Agora! Me encontra em 10 minutos na estação.

– Agora já? Mas eu nem tô pronta. Que horas começa?

– Começou às 19h. Vai logo.

Levantei, coloquei a primeira roupa que estava na minha frente, dei um nó no cabelo, rímel e nada mais. Nem base, nem batom. Usando sapatilhas e calça jeans. Resolvi arriscar e também me vesti de mim mesma.

Não sei se foi porque pessoas já estavam muito bêbadas a hora que eu cheguei ou se foi porque eu estava confortável e feliz nas minhas sapatilhas, mas o turco veio conversar comigo. Aquele. O mais lindo de todos.

Foi aí que eu comecei a perceber que eu sou linda… fora do Brasil. Fora dos padrões impostos pelas capas de revista, pelos programas de tv. Não que isso não exista fora do Brasil, é lógico que existe, mas eu precisei viajar para muito longe para perceber que as pessoas mais bonitas nem sempre são as mais magras e as mais bem vestidas. As pessoas mais bonitas são as que estão felizes e não precisam se preocupar com o sapato apertado, com o vestido subindo, com a maquiagem borrada ou com a barriga saliente. E se eu mesma não me interesso pelos mais bonitos e bem vestidos por que eu teria que ser a mais magra, mais bonita e mais bem vestida? Eu já devia ter notado isso antes. Eu devia ter notado isso quando eu me interessava pelo José Victor enquanto todas se interessavam pelo Armstrong e pelo Paulo.

E eu acho que essa foi uma das coisas mais importantes que eu aprendi viajando. Entretanto, aplicar esse aprendizado no Brasil não tem sido fácil. Tenho exercitado diariamente uma maneira de ser mais desencanada com essas coisas por aqui. Leio e converso bastante com vários amigos sobre isso e, pelo visto, não sou a única que tem essa sensação de “liberdade” quando viaja.

Reparem nas fotos de quem está viajando. Não é difícil achar fotos de alguém usando um chapéu, uma roupa diferente. Usando coisas que tinha vontade de usar no Brasil, mas não queria enfrentar o julgamento ou as piadinhas sem graça dos amigos.

Reparem como estão felizes.

Reparem como estão descabelados naquela foto do passeio de barco.

Reparem que estão sem maquiagem e não se importam com as olheiras por terem passado a noite inteira num trem noturno.

Esses tempos eu li um texto muito bom que fala sobre a beleza estar nos olhos de quem vê. Leiam! Não sei se vocês concordam, mas além de me sentir linda viajando, meus olhos também conseguem ver tudo mais bonito. Não vejo a hora de marcar minha próxima viagem para ter um reencontro com a minha autoestima 😉

P.S.: ao invés de esconder as fotos mais toscas da viagem, as escolhi propositalmente para ilustrar esse post. E esse foi o meu exercício de desprendimento do dia 😛

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