Rio de Janeiro, São Paulo e Morrissey

Talvez esse post fuja um pouco da proposta do blog, que é falar sobre viagens, mas como eu fiz duas viagens para assistir aos shows do Morrissey no Rio e em São Paulo, acho que isso abre uma brecha para eu escrever sobre o assunto. De qualquer forma, a minha vontade de dividir com vocês esse show é tão grande que eu poderia inventar qualquer desculpa para escrever sobre isso. Hehe.

Como eu já contei para vocês aqui, quando estive em Manchester tentei seguir alguns passos do meu ídolo e conhecer alguns lugares que foram importantes para uma das melhores bandas dos anos 80, o The Smiths. Ao contrário da maioria das pessoas, eu conheci o Morrissey antes de conhecer os Smiths. O meu processo foi inverso. Então, para mim, o Morrissey é o Morrissey e não apenas o “ex-Smith Morrissey”. Apesar de ter conhecido o mito apenas há 10 anos, sinto que posso falar com propriedade dele, embora saiba que alguns fãs mais antigos torcem o nariz para isso. Eu descobri o Moz quando acompanhava um blog que, de vez em quando, postava letras das músicas dele. Me interessei pelas letras, fui procurar quem era o cara e acabei caindo nesse universo. Ouso dizer que entrar nesse mundo pode ser um caminho sem volta e eu quero levar alguém daqui junto comigo. Vamos?

Peguei o primeiro voo para a Cidade Maravilhosa e às 7h30 já estava desesperada querendo abandonar as malas no hotel para verificar a fila do show. Cheguei na Fundição Progresso às 8h30 e era a terceira da fila. O Eduardo e o Alexandre tinham vindo de Belo Horizonte e já foram contando alguns detalhes do show, o que me deixou mais ansiosa ainda.

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Pronto! Estava garantido. Eu conseguiria ver todos os detalhes.

Eu estava na grade. Em frente ao pedestal e, depois de quase 16 horas de espera, ele entrou. Eu pensei que ele estava mascando chicletes, mas depois percebi que era só cacoete e que, na verdade, ele mascava a própria língua. “Caralho! Ele existe!” foi a primeira coisa que eu pensei. Baixinho, nariz empinado. Não sei como ele não tombava para trás. Ironizando na cara dos fãs que choravam desesperadamente, Morrissey era exatamente como eu imaginava. Sarcástico e amargurado. Alguém que demonstra com maestria como transformar qualquer coisa aparentemente ruim em poesia. Do tipo que levanta os ombros como quem diz “eu sei disso” quando alguém mostra uma plaquinha com a frase “we love you”.

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Não há como negar, o anos fizeram bem ao nosso amigo. Aquele menino magricelo de rebolado desengonçado na época dos Smiths tornou-se um homem muito bonito e charmoso. Eu diria até elegante, se você conseguir abstrair as unhas pintadas de amarelo, o colar de bolinhas azul bebê e os pseudo passos de flamenco.

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Morrissey é teatral. Interpreta sofrimento e repete sempre os mesmos movimentos, nas mesmas músicas, mas mesmo sendo previsível, qualquer ação dele era acompanhada e admirada por todos ali. Eu confesso que me achava exagerada demais quando o assunto era Morrissey, até conhecer os outros fãs. O negócio é doentio.

Um dos momentos mais esperados do show é durante “Let Me Kiss You” quando ele canta “but then you open your eyes and you see someone that you physically despise” e abre abruptamente a camisa, para o delírio de todos. Camisa essa que será jogada para o público no final da música.

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Por amor à vida, antes do show eu prometi a mim mesma que se a camisa viesse na minha direção, eu não ia entrar na briga, mas quando percebi eu já estava com uma manga na mão puxando igual cabo de guerra e gritando “VAMOS DIVIDIR! VAMOS DIVIDIR!”. Foi mais forte que eu. Perdi a linha e acabei faturando apenas um botão. Não é fácil lutar com um monte de homem por um pedaço de pano do MORRISSEY.

Eu não posso dizer que o show foi perfeito porque ali onde eu estava eu não conseguia ouvir nada do que ele cantava. Ficar na grade tem suas desvantagens. Passei o show inteiro vendo ele “dublar” as pessoas que estavam cantando ao meu redor. Foi péssimo e, por isso, decidi fazer diferente em São Paulo. Eu já tinha visto a lenda de perto. Eu sabia que ele existia, que ele suava, que ele cuspia enquanto cantava, que a barra da calça estava desfiada de pisar em cima e que ele não fechava o zíper inteiro da calça. Em São Paulo eu queria ouvi-lo. Eu acho a voz dele linda! Passei a maior parte do show de olhos fechados, só ouvindo e curtindo. Foi tão emocionante que eu nem me importei com a qualidade do som, que não estava das melhores.

Quando Morrissey foi embora só restou um vazio e a esperança de que ele não demore tanto tempo para voltar ao Brasil. Fico feliz de ter visto o show que eu mais queria ver na vida e também fico aliviada por saber que nunca mais vou sofrer tanto tempo esperando por alguém na fila e nem sendo esmagada na grade ou algo do tipo, pois isso tudo que eu fiz, eu faria apenas por ele e ninguém mais. O lado ruim disso tudo é que eu, que adoro ir a shows, não vou achar mais nenhum tão emocionante, pois ninguém vai superar o mestre.

E antes que alguém aqui pense que eu sou doente demais (principalmente quem acompanhou o meu facebook nas últimas semanas), leia essa matéria que a Lorena Calábria fez com os fãs do Morrissey. Tem gente que quer até beber o suor do Moz. By the way, eu estou entre os fãs na matéria, mas me considero a mais normal de todos. Será?!

Essa não foi a primeira vez que eu viajei para assistir show e, com certeza, não será a última. É sempre bom tentar aproveitar para conhecer outros lugares e também fazer novos amigos. Já conheci bastante gente nessas viagens para shows, principalmente porque quase sempre vou sozinha e, volta e meia, acabo reencontrando essas mesmas pessoas em outros shows.

Queria escrever sobre tantas outras impressões do show, mas vou ficar por aqui apenas lembrando de um trecho de “All You Need is Me”: “There’s a soft voice singing in your head. Who could this be? I do believe it’s me (…) You’re gonna miss me when I’m gone”.

É Morrissey, você tem razão, all we need is you.

Comentários

comments

18 Comments on Rio de Janeiro, São Paulo e Morrissey

  1. Tati
    15 de março de 2012 at 9:06 (7 anos ago)

    Call me morbid, call me pale… And if you have five seconds to spare then I’ll tell you the story of my life…

    Essa turnê do Morrissey aqui tão perto, para mim foi repleta de lágrimas… de emoção por saber que ele estaria com aqui depois de 12 anos, de angustia por estar viajando e com acesso precário a internet enquanto os ingressos estavam sendo vendidos, de raiva por os preços terem aumentado tanto quando eu consegui acesso, de ódio quando, depois de 2 dias de ter voltado de férias, pedir pra chefe pra ter que faltar um dia na mesma semana e ouvir um sonoro e debochado NÃO!! (ok, sei que pedi demais, mas vai que dava certo!)
    Não deu, não fui… sem mais comentários sobre isso pq a dor ainda é recente, hehehe.
    Pelo menos guardo no coração os shows de 2000, quando fiz a Mariana e segui todos os passos que ele deu por aqui.
    Não consigo dizer com precisão quando eu caí (de joelhos) no mundo Smiths. Já não sou tão nova, então Smiths, e Morrissey, tocavam na radio, nas festinhas com amigos e em casa mesmo. Em cd? Que nada! Em LP, bolachões que conservo até hoje. Fiz o caminho inverso do da Mari, conheci Smiths, Morrissey foi uma consequência natural. Lembro-me de acompanhar na Bizz os boatos sobre o triangulo amoroso Morrissey-Marr-Summer, a formação do Eletronic (já ouviu, é demais!), as carreiras solo… Entendo o fanatismo de muita gente, nos anos 80/90, Smiths/Morrissey (e mais algumas bandas daquele tempo, pelas quais sou igualmente fanática – vide Joy Division) deram voz as nossas angustias, cantarolando pelas ruas suas músicas, que ouvíamos pelo walkman, cantávamos nossos sentimentos, colocávamos pra fora a dor que apertava o peito, faziam o efeito de antidepressivo para os adolescentes (na real até hoje em mim fazem, podem rir, é verdade) angustiados pela perda de um grande amor ou alguma frustração…
    Fico por aqui, falei demais!! he

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    • Mariana
      Mariana
      15 de março de 2012 at 13:33 (7 anos ago)

      Que pena que não conseguiu ir, Tati, mas pelo menos já tem um show na lembrança.
      Sabe o que eu acho mais estranho disso tudo? Eu pensei que depois do show o endeusamento ia passar um pouco, mas parece que aumentou. Agora eu quero mais e mais.
      Vou começar a ouvir a discografia dos Smiths e do Morrissey novamente. Parece que depois do show todas as músicas que eu escuto estão com um gosto diferente.

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  2. caju
    15 de março de 2012 at 22:22 (7 anos ago)

    curti

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  3. Erica
    16 de março de 2012 at 9:30 (7 anos ago)

    Mari, dá uma olhada no email que mandei. Saudade de tudo :(

    Responder
  4. Erica
    16 de março de 2012 at 10:41 (7 anos ago)

    Será? Vamos manter em segredo.

    Responder
    • Mariana
      Mariana
      16 de março de 2012 at 20:52 (7 anos ago)

      ;)

      Responder
  5. lino
    16 de março de 2012 at 19:41 (7 anos ago)

    E quem disse que esse post não fala sobre viajem?
    Uma viajem ao Reino Mágico de Oz. hehe…ops! digo Moz.

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    • Mariana
      Mariana
      16 de março de 2012 at 20:51 (7 anos ago)

      hahahahaha
      verdade!
      muito bem observado!

      Responder
  6. Alexandre Coelho
    19 de março de 2012 at 0:09 (7 anos ago)

    Lindo Mari, simplesmente lindo!

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    • Mariana
      Mariana
      19 de março de 2012 at 16:28 (7 anos ago)

      :)
      Queria mais!!
      Eu devia ter ido ao show de BH também…

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  7. eliane
    3 de maio de 2012 at 17:02 (6 anos ago)

    Esperei para ver meu herói por 25 anos, ele veio e eu quase enfartei.Mas, Mariana, você acha o Moz baixinho?
    Ele tem 1m.83! Eu sempre achei ele alto, claro, nos vídeos
    ele fica mais alto ainda.

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    • Mariana
      Mariana
      3 de maio de 2012 at 17:05 (6 anos ago)

      sim, eu achei baixinho, mesmo sabendo que uma pessoa na altura dele não é considerada baixa.
      mas é que ele tá meio parrudinho, daí fica compacto, sabe?!
      não tem mais aquela cara do morrissey dos anos 80 que o combo magreza + altura fazia ele parecer que tinha uns 2m. hahahahahaha

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  8. eliane
    14 de maio de 2012 at 11:22 (6 anos ago)

    Eu achei que ele está forte pra caramba! Não está gordo, ele ganhou massa!huhahahah. E com os cabelos grisalhos e os olhos azuis está de matar! Um homem vinho! Também com a alimentação que ele têm, deixa muitos jovens de 25 anos no chinelo!

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    • Mariana
      Mariana
      14 de maio de 2012 at 11:26 (6 anos ago)

      Sério Eliane? Será que estamos falando do mesmo Morrissey? Hahahahahaha
      Concordo que ele é um homem vinho, quanto mais velho, melhor, mas eu achei que pela idade dele ele deveria estar mais conservado. Parece mais velho do que de fato é.
      Mas, ainda assim, é de um charme indescritível.

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3Pingbacks & Trackbacks on Rio de Janeiro, São Paulo e Morrissey

  1. FINESTRINO » Arquivos » Pollstar
    21 de maio de 2012 at 16:58 (6 anos ago)

    […] update porque, como eu citei acima, eu estava cadastrada para receber notícias sobre os shows do Morrissey no Brasil, porém eu recebi o boletim informativo do show um dia antes do show. Portanto, acho que […]

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