Mais um pouco do que você queria saber sobre Milão

Já faz 7 anos que voltei de Milão. Uau, passou muito rápido. Morei um ano lá fazendo intercâmbio com a faculdade. Quando cheguei por lá achei que nunca iria me adaptar e sofreria horrores. Quando voltei, achei que nunca iria me adaptar e sofreria horrores. No fim, como podem ver, eu sobrevivi.

Engraçado como a gente é sim muito adaptável, né? A mudança pode ser um grande baque, e mudar de país é um baque bem forte sim. É um baque linguístico, uma saída absurda do comodismo e da rotina, um baque em você mesmo por qualquer motivo mais besta e que só significa algo pra você mesmo. (não sei se deu pra entender isso, haha)

Já faz 7 anos que voltei, 5 que escrevo o blog, são muitos posts sobre Milão, um guia online completo e eu ainda recebo trocentos e-mails e comentários perguntando mais e mais de lá. Não que faltem informações, eu realmente não omito nada aqui, não fico guardando dica só pra mim, mas acho que quando a gente resolve fazer essa mudança drástica (sim, porque é drástico sim) na vida, surgem tantas dúvidas que a gente quer tentar saber tudo, tudinho antes, pra tentar não sofrer com a mudança.

sobre milãoNão tá boa essa minha selfie assim que coloquei os pés na cidade?

Bem, eu te digo que mesmo eu falando tudinho o que eu sei e tudinho o que passei lá, amigos, o sofrimento, a angústia, a dúvida, as dificuldades… todas elas ainda acontecerão. É inevitável. Eu escrevi de tudo aqui, sobre alguns lugares pra comer (mas eles sempre fecham, abrem, mudam), onde ficar e como procurar apê (mas os preços variam ao longo dos anos), como se locomover, onde comprar, etc e etc. Mas a coisa é, tem umas coisas tão simples que me perguntam – não vou dizer que são bobas porque quando a gente tá mudando a vida assim, nada é bobo – e que eu meio nunca falei/contei aqui. Então esse post é pra isso, contar umas coisinhas bobinhas e que todo mundo me pergunta SEM-PRE.

*Aviso que só usei fotos velhas da época, mau tiradas e no calor do momento (e não me importa porque estou saudosa e foi uma época ótima!). Na época não tinha celular bombante com câmera, engraçado, porém verdade. Muita coisa mudou de lá pra cá.

1. E os italianos? Eles são legais? Eles são receptivos?

Olha, honestamente? Em Milão eu achei bem complicado. Quando fui morar eu senti bastante dificuldade pra me relacionar com eles. Em Milão tem uma concorrência fenomenal na área de Design (não sei as outras então não vou comentar) e parece que todo mundo está pensando em te passar a perna. Eu tive esse feeling.

Eles não são ultra simpáticos de fazer questão de falar com os estrangeiros, pra começar que tem muito estrangeiro lá, e acho que é tão comum pra eles, que nem se interessam mais, em conhecer outra cultura… acho que já conhecem porque já falaram com pessoas do mundo todo. Então a gente é só mais um e pronto.

Na faculdade eu tive bastante dificuldade com eles. A maioria dos meus amigos eram outros estrangeiros, e esses são sempre muito amigáveis. Porém quando voltei pra lá em 2013, eu achei tudo mais fácil. Não sei se foram eles, se foi o ambiente em que estive (não faculdade) ou se amadureci e soube lidar melhor com isso, mas achei tudo muito mais amigável. Na verdade, em 2 semanas que fiquei lá, fiz mais amizades do que durante o 1 ano estudando. A fórmula? Não sei, realmente não sei.

2. Posso ir pra lá sem falar italiano? Vou conseguir viver?

Vai, vai sim. A gente sobrevive a tudo. Em Milão tem bastante gente que fala inglês, tem aulas em inglês e a cidade é bem internacional sim. Porém, lembre que em banquinhas, mercados, guichê de metrô, lojinhas de rua… não falam inglês né?

Ainda os que falam, tem um sotaque fortíssimo e as vezes pode ser complicado. Eu dividi apê com uma brasileira que só falava inglês e ZERO italiano. Ela nem se esforçava pra aprender algo, e ela sofreu muito lá. Inclusive ela voltou antes pro Brasil. Mas também não preciso nem comentar o óbvio né, no mínimo VOCÊ tem que tentar se adaptar. Foi VOCÊ que foi pra lá, não eles que invadiram sua área. Saia da sua zona de conforto e aprenda a língua deles. Se já é difícil se relacionar em italiano com eles, imagine em outra língua!

sobre milãoEssas foram as primeira 4 fotos que tirei em Milão

3. Devo alugar um apê aqui antes ou lá?

Eu recebo muito e-mail/comentário sobre isso. Vou falar a verdade, é difícil alugar apê lá. Nas regiões centrais os preços são bem altos, tem lugares que tem contrato mínimo de 3 meses e você tem que pagá-los como calção, alguns italianos não alugam pra estrangeiro – principalmente estudante – e pra fechar, a procura é imensa.

Eu acho complicado alugar algo daqui. Primeiro que muitos precisam ser assinados e tal. Segundo que como você aluga algo que não viu? Não existe isso! No mínimo pede pra algum conhecido visitar o local. É sério, a Itália tem muito prédio velho e tosco, e como tem muita procura, o pessoal monta de um tudo pra tentar alugar pra estudante. Tem muita enrascada.

sobre milãoNa esquerda o apê todo mundo apinhado, na direita o apê feliz que vivia cheio de gente e festas e comidas e famiglia felice.

Quando fui tive a sorte de poder ficar na cada de uma conhecida. No mesmo período comecei a procurar loucamente. Peguei algo bem mais ou menos (mais pra menos) porque precisava sair da casa dela e era barato e tal. Demorou uns 3 meses pra eu finalmente achar um lugar decente com amigos. E foi sorte, porque uma das meninas saiu do apê e minhas amigas precisavam de alguém e tchum, peguei! Foi sorte.

sobre milãoMeus roomies amados! 3 fotos da nossa viagem pelo sul da Itália antes de todo mundo se separar, e embaixo foto do casamento da Karla, que dividia apê comigo, anos depois. Muito amor envolvido. ♥

Tentar casa de estudante pode ser uma boa saída, pra não ficar tão longe, não pagar tão caro e elas são ok. Tem algumas muito tops, mas aí vai do que quer pagar. É pesquisa, não posso dizer mais do que isso. Pesquisa incansável e sorte. Ou dinheiro, que daí né, sempre facilita, haha.

4. Como é a faculdade X, Y, Z? Qual o preço? Como faço pra entrar?

Eu entrei em várias faculdades lá, fui visitar, conheci os prédios e tal, mas tirando isso, eu realmente só posso falar sobre o Polimi, que falei aqui. Eu só estudei lá, foi um processo pela faculdade daqui, a UFPR e eu não posso e nem sei falar dos processos das outras. Não sei como funcionam.

Preços muito menos, porque isso é bem variável entre anos e entre escolas. A minha foi uma bolsa, eu não sei te dizer quanto custaria um curso normal por lá. Todas elas são muito receptivas e respondem e-mails. Nessa hora eles são bem solícitos, sempre tem um escritório que só cuida de estrangeiros e eles realmente fazem o que podem pra ajudar. Isso pra mim foi uma surpresa. Pelo menos no Polimi não tinha como ser melhor recebido, toda a assistência cabível foi dada.

sobre milãoEssa faculdade é tão moderninha. E eu era um bebê!

5. Quanto preciso pra estudar lá?

Bem, eu fui há 7 anos atrás como falei. Preços mudam, mas eu fiz um post completo de quanto custava na época. Acho que dá pra ter uma base pelo menos.

Esses valores vão mudar dependendo de onde for morar e principalmente onde for estudar. Tem alguns cursos bem caros por lá mesmo. Com o euro alto, é bom preparar o bolso amigos.

6. Dá pra viajar bastante enquanto estudo lá? Toda semana quero viajar!

Gente, isso é bem sério. Tem dois tipos de intercâmbio: o que você vai e paga pra estudar e aprender, e aquele que é pra festar e viajar. Numa real, a faculdade é bem puxada lá. Mesmo. Eu tinha muita aula (tá que sou meio nerds e eu me inscrevi em trocentas matérias) e muitas eram manhã e tarde. Ou seja, se você estuda manhã e tarde, e isso significa aula das 9h até as 18h, você só tem a noite pra estudar e fazer projeto.

Na faculdade de design é tudo com projeto, e projeto é uma parada que demora muito. E sem muito tempo durante semana, sobra pro final de semana e dias “livres”. E ainda tem provas e apresentações pra fazer, e relembrando que isso tudo é em outra língua.

Não é impossível porque nada é impossível, mas não é uma mamata não. E ninguém pega leve com você porque é estrangeiro. Podem não descontar algum erro de escrita numa prova – afinal, você é gringo – mas eles vão corrigir o resto normal e cobrar tudo normal. Sem contar que pelo menos na nossa facul, a gente fazia projetos para empresas reais e quem ia assistir as apresentações e passar briefing eram diretores, designers e gente fodona das empresas mesmo. Empresas fodas, internacionais. Isso é maravilhoso porque é uma oportunidade de mostrar pra essa gente ~meio inacessível quem é você e seu trabalho, e ao mesmo tempo é aterrorizante porque é aquela gente que é referência no-mundo. E você é gringo e não fala direito. Pensa o nervoso!

Enfim, eu queria ter viajado muito mais enquanto estava lá, mas não deu muito não. No máximo viagens curtas de 1-2 dias pela Itália mesmo, porque viagens de dias assim… eu fiz 5 só, e uma delas foi no feriado de Natal – Ano Novo, e as outras não foram mais de 4 dias fora. Inclusive quando voltei do Ano Novo, a primeira aula tinha prova teórica de história da arquitetura em italiano. Tirei 10? Sim ou não? Hahaha Aliás, essa matéria era muito difícil e eu tive que desistir dela. E eu tinha medo da professora.

7. E a comida? É só massa mesmo? É barato?

É por aí. É claro que tem carne, tem frutas e tal… mas é consideravelmente mais caro. Tem lojinha com coisa brasileira, tem Porcão e tudo, mas quando morava lá, lembro que 1 abacaxi custava mais do que 5 euros, mais de R$ 15. Puxado, pelo menos pra mim.

O que é barato lá são as massas, crepes, qualquer coisa com Nutella, gelatto e kebabs, e tudo isso está por todo canto. O que é legal é que tem uma infinidade de restôs que fazem primo+secondo+bibita por 10 euros. Isso significa comer um pratinho de massa, um de carne e bebida. Umas promos legais assim, principalmente perto das faculdades. Nossa, perto do Polimi tinha milhões. Ou pedaço de pizza por 3 euros, crepe por 4, panini por 5.

Os kebabs estão por tudo, e são ótimos (eu achava pelo menos). Tem uns combos também, com bebida e batata, ou sei lá, qualquer outra coisa por uns 7 euros. Eu comia muito kebab lá, era a forma de ingerir carne, porque realmente sentia falta de carne.

8. Na Páscoa, é só Kinder ovo

Nunca me perguntaram isso, mas foi algo que notei lá. Juro que quando chegou perto da Páscoa eu pensei “caraca vai ter ovo de tudo quanto é tipo de chocolate diferente e rico, vou falir e engordar”. Que nada! Só via Kinder no mercado!

Não que seja ruim mas… ERA SÓ KINDER! Não sei se isso mudou hoje em dia, mas foi minha decepção por lá. Sério, eu fiquei triste. Nem comprei ovo naquele ano. Nem celebramos nada em casa. E eu adoro a Páscoa, são os presentes mais legais, oras!

9. Comprar remédio: não fique doente no domingo

Eu meio que sempre fico doente. Minha ansiedade sempre ataca estômago e gastrite e daí vai… Indo morar fora achei que ficaria doente os 365 dias. Era um grande medo dessa mudança toda.

Por sorte em toda a minha estadia em Milão, eu precisei ir em uma farmácia 2x só! Uma foi pra um remédio bobo e também descobri que eles são muito certinhos com receitas. Não vendem nada fácil. Ah e também vi que as farmácias lá são só farmácias e não mini super mercados em todo canto que bem aqui. Claro que tem umas sortidas, mas muitas são só de remedinhos. Elas não estão em cada esquina, e quando eventualmente alguém me perguntava de uma, eu tinha que pensar onde.

A outra vez precisei ir por uma crise renal. Que delícia, não é mesmo? E foi nesse dia que eu descobri que farmácia não abre domingo. Oi? É isso mesmo Bial? Então, é. Na época rolava um rodízio de farmácias na cidade que abriam domingo. E tem uma lista em todas com essas datas. Mas pô, fala sério, tô lá morrendo e preciso lembrar que nesse dia é a farmácia do outro lado da cidade que abre. E pegar metrô e ir lá. Me poupa, Itália! Fui pro hospital mesmo, e demorei 890 anos pra ser atendida. Mas enfim, aprendi que não dava pra ficar doente no domingo.

10. Mercados: melhor comprar durante semana também

Mesma coisa das farmácias. Muitos fecham no domingo. A gente está mau acostumado que aqui no Brasil essas duas lojas abrem direto. Lá não. Lá é Itália e lá é “dolce far niente”. Eles descansam sim.

11. A hora do almoço é diferente

Outra coisa que me foi estranha no começo. Aliás, na estadia toda. Durante 21 anos vivi almoçando entre 12h-13h e lá não é assim. Lá o trabalho e as aulas começam 9h-10h, a pausa pro almoço é das 13h às 14h15 (na facul era) e voltam até as 17h-17h30.

Meu estômago sofreu com esse horário novo. Parece bobo, mas eu demorei pra me educar que o almoço era só ás 13h e não às 12h. Engraçado como a gente fica condicionado a algo assim.

Enfim, são só coisinhas bobas e simples, mas quando eu fui não tinha absolutamente NADA de informações sobre Milão. Não tinha essa quantidade de blogs por aí. O Facebook não era usado aqui ainda – aliás, eu fiz minha conta quando morava lá, porque meus amigos gringos não usavam Orkut – e não existia Instagram ou Whatsapp. Era vida loca, fui sem saber nada, conhecendo 2 pessoas que estavam lá e só. E era difícil as comunicação. Hoje tá muito mais fácil, muito infinitamente. Dá pra ir sabendo um montão de coisas!!

Pra você que está indo: vai tranquilo! Não é nenhum bicho de 7 cabeças! Mas vai sabendo que é você que está em país diferente, é você que tem que se adaptar, é você que tem que falar a língua deles e que você finalmente saiu da sua zona de conforto. E vai ser tudo incrível e voltar cheio de experiências e histórias pra contar! ;)

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